4.5.08

Perto de um milhar de trabalhadores nas ruas na manifestação do 1º de Maio
Mais reivindicações do que pessoas

Quem estava à espera de uma grande manifestação no Dia do Trabalhador terá deixado a marcha de ontem desiludido. A onda de protestos de rua que nos últimos meses deixavam antever uma grande concentração ‘morreu na praia’. Deputados democratas acusam as autoridades de terem organizado uma campanha concertada para tentar dissuadir os manifestantes

Alfredo Vaz

‘Muita parra, pouca uva’: as manifestações do 1º de Maio decorreram em tom bem mais suave do que a actual conjuntura social de Macau, e a ‘moda’ dos protestos de rua dos últimos meses, faziam crer. Entre 700 a 1000 pessoas terão participado na marcha, números que variam segundo a avaliação das autoridades, organizadores ou jornalistas que acompanharam o protesto. Um facto é indisputável: o protesto decorreu sem incidentes, não se repetindo os confrontos do ano passado. Foi um protesto pacífico, mas ‘activo’ e ‘colorido’, permanentemente acompanhado por um forte contingente policial.
As reivindicações resumiam as maiores preocupações e os temas que mais tocam a uma larga parte da população local de menores recursos: mais habitação social, melhores condições laborais.
Associação do Novo Macau Democrático e a Comissão Preparatória da União do Poder dos Trabalhadores, as duas associações locais que deram a cara pelo o protesto, conseguiriam mobilizar populares para a manifestação. A marcha partiu do Jardim Triangular da Areia Preta, na zona norte da cidade, para percorrer algumas das principais artérias da cidade. Ao núcleo juntaram-se também algumas dezenas de pessoas solidárias com a iniciativa de três cidadãos de Macau que decidiram organizar o seu próprio protesto a partir do jardim Sun Yat Sen, junto às Portas do Cerco.
A principal mentora do apelidado "Grupo dos Três" acabou por só se juntar aos outros populares na parte final da concentração por – acusou – ter sido retida na fronteira de Gong Bei, pelas autoridades policiais chinesas, quando pretendia deixar a China com destino a Macau. Alegadamente, ficou detida e foi interrogada durante quase oito horas e meia, sem que qualquer justificação lhe tenha sido dada, acusou.
A coluna foi ‘engrossando’ à medida que a marcha avançou por algumas das principais artérias da cidade, sobretudo na Avenida Horta e Costa, o ponto alto, em números, deste protesto. Mas foram mais as pessoas que se agruparam nos passeios para ver a marcha passar do que aqueles que, de facto, estavam a protestar. Mais habitação social, melhores condições laborais para os trabalhadores locais, suspensão da importação de trabalhadores, maior combate à corrupção e leis mais justas eram alguns dos slogans inscritos nas faixas dos manifestantes.
Integrado na manifestação esteve também um cidadão português com um cartaz onde se podia ler: "Qualidade de vida, sem especulação imobiliária selvagem e corrupção discriminatória. Existe discriminação social e laboral. Novas leis justas aos cidadãos comuns de Macau".
O portador da mensagem era Luís Filipe, um cidadão português radicado em Macau há 21 anos, ex-ciclista profissional e actualmente funcionário público.
A marcha seguiu depois Rua do Campo fora até à zona dos Lagos Nam Van e Palácio do Governo, última e simbólica paragem, e onde os organizadores entregaram a um funcionário administrativo cartas de protesto exigindo resolução dos problemas laborais, incluindo restrições à mão de obra importada e mais postos de trabalho para os residentes locais e mais habitação social e a democratização total do sistema politico, implementação do sufrágio directo, até 2019.

“Governo fez tudo para impedir a marcha”

A acusação foi feita pelo deputado Ng Kuok Cheong em declarações ao PONTO FINAL. O deputado à AL e presidente da Associação do Novo Macau Democrático não quis isolar o comportamento das autoridades policiais, mas acusou o Executivo de “dar ordens” – incluindo ao agentes da autoridade – e de “concertar posições” para tentar minimizar o impacto das manifestações: “Ontem à noite, o Executivo fez passar a mensagem de que a manifestação começaria na Ilha Verde, junto ao jardim de Sun Yat Sen, mas ainda assim a população não deu ouvidos e juntou-se a nós no Bairro da Areia Preta."
Em declarações aos jornalistas no final da marcha, Ng Kuok Cheong, disse estar "surpreendido" com a adesão popular e sublinhou que a realização da manifestação "é a prova de que a distribuição de dinheiro pelo Governo e outras medidas políticas tomadas pelo Executivo não são suficientes nem chegam para calar a população e que é necessário fazer mais".
Sem a adesão popular de manifestações anteriores, a polícia acabaria por conseguir concentrar os manifestantes no passeio em frente do Palácio do Governo impedindo a passagem de populares e jornalistas entre um e o outro lado da rua.
O ano passado, as marchas 1º de Maio ficaram marcadas por confrontos entre manifestantes e a polícia, uma situação ‘extremada’ quando um agente da autoridade disparou vários tiros, ferindo uma pessoa.

CAIXA
“Abaixo a corrupção!”

Um grupo de manifestantes empunhou ontem cerca de uma dezena de cartazes com uma fotomontagem de uma fotografia de Ho Yin, empresário e antigo líder da comunidade chinesa local, e pai do Chefe do Executivo, Edmund Ho. A fotografia original remonta às manifestações do 1,2,3 acontecidas em Macau no dia 3 de Dezembro de 1966, em pleno período da Revolução Cultural chinesa. Macau viveu então momentos de sobressalto, com confrontos entre cidadãos chineses que protestavam contra a ocupação colonial. Ho Yin encabeçou então uma das manifestações. Quase 32 anos depois, um dos grandes visados da manifestação foi o filho Edmundo Ho. Na fotomontagem, os autores sobrepuseram na mão direita de Ho Yin um cartaz ‘contemporâneo’ com os caracteres chineses a denunciar a corrupção.

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