4.5.08

Cidadãos podiam estar descansados porque assassinos eram ‘profissionais”
Monge não lamenta ter dito o que disse

O General Manuel Monge, hoje Governador Civil de Beja, era secretário-adjunto para a Segurança quando a violência gerada pelas tríades se instalou no dia-a-dia de Macau. Em declarações ao PONTO FINAL, por email, insiste agora na ideia de que só com o apoio empenhado da China era – e foi – possível combater o crime organizado de forma mais eficaz. Quanto à célebre declaração em que sublinhou o profissionalismo dos assassinos ao serviço das tríades, por muitos considerado a maior gaffe desse período, diz que não retiraria hoje uma palavra ao que disse

PONTO FINAL – O que foi que impediu que as polícias e o aparelho judiciário travassem o aumento da criminalidade violenta, na segunda metade dos anos 90, de uma forma mais efectiva?
Manuel Monge – Só por finais de 1997, depois da prisão do “Big Spender” de Hong Kong e das ameaças feitas em Macau pela “14K” às principais figuras chinesas de Macau, entre elas o mais alto dirigente da Agência Xinhua, Sr. Wan Quiren (representante do governo chinês em Macau), é que as autoridades de Pequim reconheceram o perigo que a actividade das seitas representava. Daí resultou que o total à vontade com que as seitas se movimentavam nas regiões vizinhas de Macau, acabou. O que o obviamente deu às nossas polícias muito mais possibilidades.

– O Wan Kuok Koi já era uma figura incontornável do crime organizado à data da sua entrada no governo, em 1996. As informações disponíveis na altura sobre Wan Kuok Koi não aconselhavam que se agisse contra ele muito antes do que acabou por acontecer?
M. M. – O sistema judicial de Macau funciona com base em regras jurídicas respeitadoras dos direitos dos cidadãos. Logo havia que ter provas muito fortes para incriminar Wan Kuok Koi. O que demorou e foi difícil. Recordo que os americanos só conseguiram prender o célebre gangster Al Capone por infracções à “lei seca”!

– A violência entre tríades é relacionada com a decisão política de maior ou menor controlo sobre os casinos, de abertura ou não de mais salas de jogo. Que perspectiva tinha nessa altura sobre a ligação entre estas duas realidades?
M. M. – A questão do relacionamento das lutas pelo controlo de actividades ligadas ao jogo com a violência das tríades era por nós bem conhecida. Recordo os atentados que na altura houve contra dirigentes da Administração que trabalhavam nessa área.
É certo que a violência das tríades tinha a ver com a luta pelo controlo de certas actividades nas salas de jogo. Mas a abertura de mais salas estava ligada a um aumento do número de jogadores e isso só foi substancialmente possível, quando houve autorização da RPC da vinda de muitos mais turistas da Mainland a Macau, que hoje, como sabemos, atingem números espantosos.

– Para alguns comentadores um dos momentos marcantes deste período é a declaração por si proferida chamando a atenção para o facto de estarem as seitas a fazer uso de assassinos profissionais, o que de alguma forma podia ter um efeito tranquilizador pois haveria menor risco de balas perdidas virem a atingir simples transeuntes. Lamenta hoje ter proferido essa declaração?
M. M. – Os actos de violência em Macau tinham a maior cobertura mediática. Nomeadamente por parte dos órgãos noticiosos de Hong Kong que “escondiam” actos semelhantes em Hong Kong e “publicitavam os de Macau na primeira página”. Mas era minha convicção que a segurança diária dos cidadãos comuns de Macau não era directamente afectada pelas lutas entre as tríades e destas com as polícias.
Nesse contexto se devem entender as minhas declarações que os cidadãos comuns não corriam perigo pelos disparos dos elementos das seitas uns contra os outros. Naquele caso, um tiroteio em plena Avenida da Praia Grande, numa tarde de Domingo fiz sobressair o profissionalismo dos atiradores e sua eficácia e como consequência a ausência do perigo para as circunstantes. Não lamento ter proferido tal declaração, hoje fá-la-ia na mesma. Claro que houve manipulações menos bem intencionadas. Ou melhor direccionadas politicamente contra nós, Administração Portuguesa do Território.

– Se lhe pedíssemos que nomeasse alguém que, pelo lado positivo ou até negativo, deva ser destacado neste período difícil, quem apontaria?
M. M. – Não será justo escolher personalidades que se evidenciaram pelo lado positivo nesse período conturbado. As que se evidenciaram pelo lado negativo foram perseguidas pelas autoridades e a grande maioria foi presa ou fugiu de Macau.
Mas não posso deixar de lembrar duas pessoas:
Uma é o Senhor Embaixador Ké Xiao Gang, na altura Vice Presidente da Agência Xinhua com a responsabilidade da área de segurança e que teve connosco relações de frontalidade, solidariedade e amizade que merecem o meu reconhecimento e admiração infindáveis. A ele se deveu também, pela sua ajuda nesse sector, o grande êxito que foi a localização dos quadros das Forças de Segurança de Macau.
A outra personalidade, um grande e velho amigo de Macau, não muito conhecido na sociedade local e cujo nome obviamente não posso tornar público, que me deu as informações precisas sobre as altas individualidades chinesas de Macau que estavam a ser ameaçadas pela “14 K”, o que nos permitiu contar com um muito maior e mais expresso apoio das actividades de segurança de Pequim.

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