Entrevista com Moisés Silva Fernandes, presidente do Instituto Confúcio de Lisboa
Estudos da China são "grande desafio
para a universidade portuguesa"
Moisés Silva Fernandes, investigador que Macau conhece de diversos estudos sobre Macau e a China, fala pela primeira vez sobre o seu lugar de director do Instituto Confúcio em Lisboa. Mas promete continuar a estudar Macau
João Paulo Meneses
putaoya@hotmail.com
Estudos da China são "grande desafio
para a universidade portuguesa"
Moisés Silva Fernandes, investigador que Macau conhece de diversos estudos sobre Macau e a China, fala pela primeira vez sobre o seu lugar de director do Instituto Confúcio em Lisboa. Mas promete continuar a estudar Macau
João Paulo Meneses
putaoya@hotmail.com
Há um ano era anunciada criação do segundo Instituto Confúcio (ICO) em Portugal, fruto do empenho do reitor da Universidade de Lisboa, e aproveitando a visita de José Sócrates à China. Cerca de nove meses depois surgiu o nome de quem o irá liderar. E a escolha surpreendeu. Não que não se reconheçam muitas qualidades ao novo director, Mas porque o escolhido é conhecido sobretudo por ser um investigador. Moisés Silva Fernandes tem-se destacado nos últimos anos na área dos estudos chineses, ligando as relações de Portugal com a China e Macau. O próprio reconhece alguma surpresa. Aceitou, ainda que isso signifique atrasar alguns dos seus projectos como pesquisador. E surpreendeu, porque o ICO destina-se mais à promoção da língua chinesa (também da cultura), ainda que possa abarcar outras áreas.
Se o Instituto Confúcio em Lisboa tem um ano, a verdade é que está ainda em instalação, preparando-se para arrancar mal cheguem as duas especialistas contratadas na China. Moisés Silva Fernandes conta nesta entrevista ao PONTO FINAL quais os seus planos e explica por que é que aceitou o convite do reitor Sampaio da Nóvoa.
PONTO FINAL – O que é o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa nesta altura?
Moisés Silva Fernandes – Uma parceria entre a Universidade de Lisboa (UL) e a Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin (UEET), que se encontra neste momento em fase de instalação. A parte do Edifício C7, aonde estava antigamente a Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e que já está a servir de instalações para o nosso instituto, foi completamente renovada e foram instalados equipamentos novos. Por outro lado, foi colocado na Internet um portal trilingue, em inglês, português e chinês, com informações básicas, que pode ser consultado na seguinte morada electrónica: www.confucio.ul.pt. Estamos a recrutar pessoas para trabalharem connosco e ficou recentemente concluído o processo de concessão de vistos para que duas professoras da UEET possam vir trabalhar connosco [Xiaoqiu Kang, professora associada na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tianjin, especialista no ensino do inglês como segunda língua, e Jiangmei Wang, da mesma Universidade, especialista no ensino do português a chineses].
Só está em funções (nomeado pelo menos) desde Novembro; qual tem sido o seu trabalho desde então?
Planear e executar as tarefas associadas com a instalação do Instituto, mencionadas na resposta anterior, com o intenso apoio da Reitoria. Gostaria, desde já de destacar o especial apoio e acompanhamento que me tem sido dado pela Professora Doutora Maria Amélia Martins-Loução, Vice-Reitora para a Relações Internacionais, e o Doutor Tomás Patrocínio, Director dos Serviços de Relações Externas da Universidade de Lisboa.
O que pensa que se conseguirá no próximos meses? Qual é o vosso público mais imediato?
Dar início às nossas actividades quando chegar a Vice-Directora [Xiaoqiu Kang] e a Leitora de língua e cultura chinesas [Jiangmei Wang]. O nosso interesse é começar a oferecer cursos de língua e cultura chinesas, promover um ciclo de conferências e realizar duas exposições.
O nosso público imediato são os estudantes do ensino superior, em particular, e o público, em geral, interessados em aprofundar os seus conhecimentos sobre a China.
Dois ICO para já
Já existe um outro Instituto em Portugal; terão algum tipo de relação?
Espero bem que sim. Aliás, quando a delegação da Universidade de Lisboa esteve em Pequim para participar no II Encontro de Institutos Confúcio, no passado mês de Dezembro, tivemos a oportunidade de conhecer e trocar experiências com a Professora Doutora Sun Lam, Directora do Instituto Confúcio da Universidade do Minho.
Do seu ponto de vista, Portugal fica bem servido com dois institutos deste género ou há espaço para mais?
Julgo que sim. Por duas razões fundamentais. Primeiro, o da Universidade do Minho está na etapa inicial, enquanto o da Universidade de Lisboa está na fase de instalação. Segundo, têm que passar mais alguns anos para se poder avaliar se existe uma procura que justifique a existência de outros.
Qual é o envolvimento da China neste projecto em concreto?
Para além do envolvimento padrão, formalizado no acordo com a Hanban, a UEET celebrou com a Universidade de Lisboa um acordo especifico algo diferente do que aqueles assinados por outras instituições de ensino superior. Cada Instituto Confúcio tem as suas próprias origens e natureza.
Criou um Conselho Consultivo muito vasto [onde, além dos elementos do ICO de Lisboa, estão o presidente do Centro Científico e Cultural de Macau, a secretária-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, António Vasconcelos Saldanha ou o director do Millennium BCP; Rui Paiva]; corre o risco de ser “demasiado” vasto?
Em parte, a dimensão do Conselho Consultivo é ditada pelo acordo celebrado com a Hanban, que estipula não só a existência deste órgão, como a representação de outras instituições do ensino superior da área metropolitana de Lisboa. Por outro lado, no âmbito da abertura da Universidade de Lisboa à sociedade civil, esforçámo-nos em ter representantes da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa e do Banco Millennium BCP.
Muito empenhado nos estudos sobre Macau
A sua escolha pode ter surpreendido muita gente, que o via mais vocacionado para a pesquisa e menos ligado às questões do ensino do chinês; será correcta esta “dedução”? Surpreendeu-o a si?
Efectivamente estou mais vocacionado para a investigação. Aceitei, contudo, este repto do Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Sampaio da Nóvoa, por duas razões fundamentais. Primeira, vou ter uma equipa de apoio que me vai ajudar a traçar as orientações e a executá-las. Segundo, porque encaro que os Estudos da China, em particular, e os Estudos Asiáticos, em geral, como um grande desafio para a universidade portuguesa. Como é de conhecimento geral, estão a emergir e a afirmar-se na cena internacional dois importantes actores asiáticos: a China e a Índia, com os quais Portugal e a União Europeia vão ter que trabalhar neste mundo em crescente globalização e onde as interdependências são cada vez mais acentuadas.
O seu trabalho como investigador fica em segundo plano, nesta altura?
É óbvio que o tempo disponível para a investigação diminuiu. Continuo, todavia, muito empenhado em aprofundar os meus estudos sobre Macau e as relações luso-chinesas contemporâneas, assim como a questão de Timor nas relações luso-australo-indonésias.
O que teremos para breve da obra “sinológica” de Moisés Silva Fernandes?
Bem, no próximo dia 21, quinta-feira, vai ter lugar a cerimónia de lançamento no Palácio das Necessidades, em Lisboa, do meu trabalho “Confluência de Interesses: Macau nas Relações Luso-Chinesas Contemporâneas, 1945-2005”. Este livro reúne 11 trabalhos, alguns já publicados em revistas científicas e em actas académicas e outros inéditos, sobre as várias fases que marcaram indelevelmente os últimos 60 anos das relações luso-chinesas [A entrevista foi realizada, como se percebe, antes. Voltaremos a este livro oportunamente, nas páginas do PONTO FINAL].
CAIXA
Quem é 費茂實 *?
Quem é 費茂實 *?
A opinião pública mais interessada contactou pela primeira vez com Moisés Silva Fernandes quando saiu, em 2000, a obra “Sinopse de Macau nas Relações Luso-Chinesas, 1945-1995”, um trabalho profundo e criterioso, que rapidamente se tornou numa referência para todos os que escrevem sobre Macau e a China em Portugal (e não só), e que resultou de uma bolsa da Fundação Oriente – que, aliás, editou o livro.
Entre os seus interesses, como confirma nesta entrevista ao PONTO FINAL, está também Timor, mas tem sido Macau a ocupá-lo mais: há dois anos saiu “Macau na Política Externa Chinesa, 1949-1979” e este mês há mais uma obra a ser lançada, “Confluência de Interesses: Macau nas Relações Luso-Chinesas Contemporâneas, 1945-2005”. Isto para além da participação em inúmeras palestras e conferências.
Moisés Silva Fernandes nasceu em 1961 em Vila Real e licenciou-se em 1988 na Universidade de Manitoba, no Canadá, onde também fez um mestrado em Estudos Políticos. Desde que regressou a Portugal que é investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. É membro do Conselho Superior do Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, membro correspondente do Núcleo de Estudos Asiáticos da Universidade de Brasília e desde o final do ano passado director do primeiro ICO em Lisboa.
* Moisés Silva Fernandes, na língua de Confúcio…