25.2.08

Filarmónica de Nova Iorque actua amanhã na Coreia do Norte
A diplomacia da música

Um 747 oriundo de Pequim é suposto aterrar hoje em Pyongyang com os 130 elementos da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, que se apresenta amanhã à noite na capital da "secreta" Coreia do Norte para um concerto. A acompanhar a Orquestra estarão centenas de pessoas, incluindo jornalistas, diplomatas e técnicos. O concerto realiza-se no Grande Teatro, e destina-se a uma audiência composta pela elite do regime comunista. É incerto se Kim Jong-il, o líder, assistirá ao espectáculo.
O acordo celebrado entre Pyongyang e a Filarmónica inclui a transmissão do concerto na televisão estatal local, a mesma que, escrevia ontem o Los Angeles Times, se refere comummente aos americanos como "guerreiros imperialistas".
O convite para o concerto foi feito pelo governo norte-coreano à orquestra no Verão de 2007. O Departamento de Estado norte-americano concordou e até “encorajou” a iniciativa, sem considerá-la, no entanto, oficial. Conforme o Los Angeles Times recordava ontem, Christopher Hill, o representante norte-americano nas conversações a seis sobre a desnuclearização da Coreia do Norte, esteve envolvido no processo, e ficou incumbido de preparar os músicos sobre o que vão encontrar no país. Uma das perguntas que colocou na altura, lembra Hill, foi: "Será que este evento vai prejudicar as negociações?" "Não", decidiu-se.
No entanto, nos Estados Unidos, várias vozes se fizeram, e fazem, ouvir contra o evento.
A questão principal é saber até que ponto a mais importante orquestra de Nova Iorque não estará indirectamente a reconhecer a legitimidade da ditadura de Kim Jong-il.
Richard Allen, assessor de segurança nacional do presidente Ronald Reagan, e o ensaísta Chuck Downs, ambos da Comissão Americana de Direitos Humanos na Coreia do Norte, foram dos que mais se fizeram ouvir durante a polémica.
O regime comunista, disseram no final de Outubro em artigo no “New York Times”, está interpretando a iniciativa da Filarmónica “como um tributo e não como um acto de generosidade”.
Mesmo de modo indirecto, argumentaram, a orquestra entregaria a Kim Jong-il algo que inevitavelmente este usaria como peça de propaganda.
Terry Teachout, especialista em jazz e música erudita e crítico de teatro do “Wall Street Journal”, em texto publicado pouco antes do Natal, qualificou o concerto de Pyongyang como “um show de marionetas cujo objectivo é dar legitimidade a um regime desprezível”.
Por seu turno, o maestro da Filarmónica de Nova Iorque, Lorin Maazel, americano nascido em França e regente com carreira nos EUA e na Europa, saiu em defesa da digressão - para a qual a Filarmónica já viajou no último dia 7, com apresentações em Taiwan, Hong Kong, Xangai, Pequim e as capitais das duas Coreias. “As pessoas que moram em casas de vidro não deveriam atirar pedras”, disse. Maazel defendeu a democracia e disse ter levado mensagens de liberdade ao apresentar-se na União Soviética e na Alemanha Oriental, nos tempos do comunismo.

A música

O programa a ser interpretado amanhã neste concerto histórico consiste naa "New World Symphony, de Anton Dvorak, "An American in Paris, de George Gershwin, e no Prelude to Act III, da peça "Lohengrin", de Richard Wagner.
Para a abertura estão reservadas duas obras: "The Star-Spangled Banner" e o Hino Nacional da Coreia do Norte.

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